Publicado por: lontraboi | 13/09/2009

O que segue o fim

Lisa e DamienTodo mundo já ouviu e adorou uma banda que, por uma razão qualquer, separou-se, perdeu um membro, desgrenhou-se, desagregou-se.

Falo disso porque acabei de baixar a discografia completa com milhares de extras de Damien Rice, e no início do ano ouvi muito o trabalho de Lisa Hannigan, que costumava dividir os vocais com Damien e de quem se separou em circunstancias nem um pouco amigaveis ano passado.

Quanto mais ouço as músicas mas me apeno da coisa toda. Vejo que esse é um sentimento redundante – um outro evento notório para a minha carreira sentimental de ouvinte (my listener maudlin career) foi a saída da Isobel Campbell do Belle & Sebastian que eu até citei antes…, ele volta – reacontece. No caso de Damien e Lisa a separação veste-se de camadas de tecido, de sentimento, de intensidade.

A música de Damien Rice se tornou famosa no mundo inteiro com o Disco “O” de 2002, do qual faz parte a canção “the blower’s daughter”, que se tornou insuportável para qualquer ouvido depois da versão que Simone e Ana Carolina fizeram dela, mas que apesar disso compõe um disco visceral, intenso. Falar de um disco mais antigo nos dá uma perspectiva, porque depois de dois anos, mesmo tendo ouvido milhares de vezes, deixado de ouvir, voltado a ouvir, podemos afirmar que além da moda da época, o disco é em essência ‘foda’.

No interior do “O” que passamos a conhecer a música de Rice: é uma música visceral e virulenta e porque não dizer violenta. A sua maneira de escrever música é masculina, e isso é um elogio: vigorosa, sem meio termo, do começo ao fim, e mesmo assim poética, dramática, apaixonada. Antes que a totalidade de adjetivos seja direcionada ao Damien é imprenscindível dizer que eles só se tornam perceptíveis quando ouvimos as suas canções e ao ouví-las é ler nelas o seu sublinhado, dos ornamentos nada da música de Damien Rice nenhum é mais importante que a voz de Lisa Hannigan.

Na verdade, na época em que o “O” estourou, tudo sobre Lisa compunha com Damien, de um lado ela falava baixo, cantava os agudos afinadamente, e as vozes deles se entrelaçavam como sendo partes de uma mesma unidade, como se a existência de um contraste permitisse que toda a selvageria das letras dele viessem à tona e sua intensidade fosse moderada pela delicadeza de Hannigan. Mesmo em “woman like a man”, uma música agressiva, a sua pequena participação na música reafirma exatamente a sua permissividade ao passo que em “volcano” ela divide as estrofes em franca oposição, quase com as mesmas palavras.

O“9”(2006), segundo disco  de Damien Rice surgiu por consequência do  “O” – uma vez que, segundo o cantor , ele nunca tinha pensado que haveria um outro disco, porque , em suas palavras, era um trabalho só que se encerrava em si mesmo – e como sequencia  do “O” o “9” não chega a ser desapontador. Para quem na maioria das vezes se decepciona com o segundo disco de alguém que fez um primeiro muito bom, considero o “9” um ótimo disco, que tem contra ele apenas o fato do ‘mundo inteiro’ já saber como soam as músicas de Damien Rice.

O fato é que, lá pelo meio da turnê européia do “9”, em Munique, em março de 2007, Damien disse a Lisa, na cochia, antes do show que eles não trabalhariam mais juntos. Obviamente ela não teve muita escolha, a não ser ir embora consolada pelos membros de The Magic Numbers – que abriam o deles então – e nunca mais falar com Damien.

As separações não são bonitas, e talvez nem devam ser, mas essa, da maneira que foi, entre o depois de dois discos tão lindos, entra para a lista das mais monstruosas. Especialmente quanto as únicas informações que temos de verdadeira, é a música deles. E entre os discos, as gravações de rádio e os lados B temos um conjunto de belas músicas e a impressão de que de que se completavam. Eles cantam até bossa-nova pelo amor de deus…

Desde então, Damien continua fazendo shows, agora com o palco bem menos populosom – ele veio ao Brasil e fez um show só voz e violão -metade da banda o abandonou para se juntar a Lisa em sua carreira solo.

lisa hannigan

Esse desfecho, tenho certeza, ainda renderá várias músicas maravilhosas da parte dele, porque da parte de Lisa, que lançou o Sea Sew (2008), o que segue o fim de um relacionamento criativo com Damien Rice, é simplesmente, beleza. Ela manejou não contaminar-se e produzir um conjunto de dez músicas que não remetem a Damien, mas que se concentram nela, pela primeira vez, como se a liberdade tenha lhe permitido ser mais ela mesma, ela Lisa, ela cantora-irlandesa-delicada-pop-folk. As suas músicas são maduras e “ocean and a rock” a música que abre o disco, chega a ser sensual e distoa totalmente da maneira ‘damieniana’ de ver o mundo.

Na história da música pop, a separação de grandes artistas não resulta, na maioria das vezes, em grandes trabalhos solo.  As vezes,  mesmo quando as bandas não se separam, mas alguém resolve fazer um trabalho solo, como o Thom York –  o produto dessa jornada é sem graça em comparação ao trabalho coletivo.

seasew

O caso de Lisa não chega a ser um extremo oposto, mas não é nada ruim. Em “Pistachio”, a minha predileta,ela trata da separação de um casal, um processo cansativo do qual ela fala de maneira delicada e ponderada; se a canção servir de metáfora para a seu rompimento violento e repentino com Damien Rice, temos uma prova de que a alma artística ensolarada de Lisa Hannigan, mesmo após o mais doesto temporal, transforma-o na brisa de um dia de verão passado a beira-mar.

Publicado por: lontraboi | 04/08/2009

Laura Gibson

Laura-Gibson

Ouvir Laura Gibson não é apenas uma ação, é um procedimento. Se puder escolha uma situação ideal – uma manhã chuvosa, uma noite meio-fria, uma viagem de carro pela cidade ou para longe dela. O fluxo é fundamental para a música de Beasts Season, 2009.

Laura é uma artista folk, mas esse tipo de ‘label’ ou categorização desfavorece a maioria dos artistas, no caso dela, a isola numa dimensão sonora da qual sua música, independente de adjetivos, escapa. Enquanto toca seu violão com cordas de nylon e entoa suas palavras poéticas com voz infantil ela fala dos sentimentos e do tempo. Configura um conjunto instrumental harmônico recheado : as cordas do violão e seu dedilhado, Cellos e seus longos acordes, as pequenas entradas de piano e banjo e ocasionalmente um acordeão, sem mensionar a batida meio marcial. Não pertence a uma etiquetagem.

Certo é que, muitas coisas surgem de uma primeira experiência de ouvir Laura Gibson, podemos nos pôr de estilingue na mão e lembrar as corridas pela cidade de quando éramos crianças, podemos mergulhar um pouco mais nas intermináveis questões existencias ou, e essa é melhor hipótese, podemos submergir nos nossos pensamentos e encontrar, através das canções dela, redenção e encerramento.

Pode parecer muito vindo das poucas (nove) músicas que compõe o álbum. A brevidade, entretanto,  intensifica a sensação de profundidade com a qual as canções acabam entranhadas entre os nossos ouvidos. A primeira delas que me pegou desprevinida foi ‘Sleeper’ a sétima música do disco. Especialmente porque diz:

“To let you go

Is to lose my balance

Is to fall into silence

Is to wait, wait, wait”

“Te deixar ir é perder meu equilíbrio, é cair no silêncio, é esperar, esperar, esperar…”

Ditas assim, essas palavras parecem simplistas e sem sentido, mas espere até ouví-las da boca da cantora do interior do Oregon, agora baseada em Portland.

Há uma  bifurcação temática-filosófic,a identificada por ela mesma, no sentido das canções do álbum. Por um lado, as canções de comunião e do outros, as canções de funeral. Nas primeiras, são os corpos e a relação com os outros, amantes ou familiares, que contam, daí podemos ver a própria Sleeper e também Sweet Deception, que é belíssima por sinal, Glory e Spirited. Depois, as canções de foram inspiradas na temporada em que a cantora viveu numa casa cuja a vista dava para um dos mais antigos cemitérios de Portland. Elas dimensionam a perda, o fim, a morte, não como algo trágico, como algo triste, como o fim de uma vida, como parte natural de uma contigência de acontecimentos.

Daí as sensações de redenção e encerramento provocadas pelo disco. Já explorando assuntos não inerentes a obra, ampliarei o escopo e assim será mias fácil entender porque suas músicas versam apenas sobre estações do ano e expectativas, mas do próprio curso da natureza, fora e dentro de nós.

Não é demais querer continuar ouvindo Laura Gibson depois do Beasts Season, se for esse o caso, ouvir o disco anterior If you came to greet me te trará boas supresas como Hands in Pockets e This is not the end e Nightwatch, do segundo disco oficial dela de 2006.

Ao final, não será suficiente, pensaras nas coisas da vida, e com ansiedade esperará mais um conjunto minimalístico de nove canções para fazer com que certas coisas passem a fazer sentido.

Mas antes de ir, preste atenção em Funeral Song, quando Laura diz ““Ask no greater pardon than the pattern time is carving in your skin.” E Não peça perdão maior do que os padrões inscritos na sua pele”

Preciso mensionar que ela trabalhou com M. Ward? Que tem um beleza feérica, que é tímida?

Acho que não.

Publicado por: lontraboi | 17/07/2009

Cat Power

catpower

Cat Power

Já ouvi, mais de uma vez, que os shows da Cat Power – ou Chan Marshall – na fase bem deprê, eram exatamente isso – bem deprê! Eu que nunca fui num show dela então… nunca vi a coisa em si, mas eu ouvia os discos e o que eu mais gostava neles era essa imersão em um turbilhão de sentimentos, confusos e díspares, tudo muito visceral, muito profundo, devastador. Quando ouvi então, que ela tinha deixado a fase depressiva para trás, apesar de mais saudável pra ela, fiquei chateada porque nada era mais perfeito do que estar triste e ouvir Cat Power, na verdade ouvir Cat Power e sua guitarra (piano, violão – qualquer coisa que ela toque) era a ratificação do estado depressivo e como eu acredito em pura realização de todos os estados da alma o que seria da minha tristeza sem Cat Power?

Finalmente, depois de muito resistir, ouvi o The Greatest – 2006, o melhor disco dela de longe, musicalmente falando, ele funciona que é uma beleza, quero dizer, pela primeira vez a Cat tem músicas aproveitam toda a sua capacidade vocal que combinam com ela melodicamente. Apesar de uma adaptação meio a contra-gosto – quero dizer com isso que acho o disco espetacular mesmo sem querer gostar dele – ouvi uma e outra vez, e mais umas cem vezes desde aquele momento. Enfim, eu me acostumei com uma Cat Power segura de si, com auto-estima e sofisticação – a propósito uma das melhores uniões de filme e música se dá no filme My Blueberry Nights (Wong kar-wai,2007). É justamente, the greatest, canção homônima do disco que tem a letra mais fantástica que vi numa música em muito tempo:

“Once I wanted to be the greatest, no wind of waterfall could stall me, And then came the rush of the flood, Stars of night turned deep to dust. Melt me down”.

O The greatest em questão, foi o disco que colocou a ultra powerful girl, ou apenas a Cat Power, em todas as revistas, jornais e trilhas sonoras – agora penso que não era só as músicas depressivas dela que eu amava, mas sim a ilusão de que só eu e mais meia duzia de gatos pingados ouviam-na. Mas oq ue fazer se a maré tinha mudado e de grupos seletos o som dela passou as platéias do grande desconhecido?

Foi assim que ouvi Jukebox, 2008, último lançamento, um pouco com vontade de ouvir The Covers Record – 2000, de novo, mas com novas músicas, o que não aconteceu! – pus os meus fones de ouvido e ouvi o Jukebox – e me dei todo o direito de mudar de opinião quantas vezes achei necessário, e pense! Mudei mais de idéia do que cobra muda de pele.

Foi Metal heart, uma das canções do Jukebox, que fez meu mundo parar – uma música que lembra o rancor das músicas do You’re Free – 2003, mas toda vestida em uma absolutamente maravilhosa armadura musical, assim como em the greatest, o segredo aqui é justamente o aproveitamento perfeito da dramáticidade de sua voz e das palavras ditas com seu sotaque inagavelmente sulista.

Se não for suficiente, o Jukebox ainda nos oferta uma série de covers, que interpretados de forma tão visceral, raramente podem ser assim descritos. – quem entre os mortais consegue fazer covers de Joni Mitchell (Blue) Billie Holliday (don’t explain) e mais um Dylan aqui, um Hank Williams lá. Mas essa é a Cat Power, que se apropria das canções como se fossem algo dela, tão preciosas e únicas na sua voz inalienável.

Publicado por: lontraboi | 14/07/2009

tem coco na vila

Tem Coco na Vila

Publicado por: lontraboi | 14/07/2009

Belle & Sebastian

606px-Belle_And_Sebastian_-_If_You're_Feeling_Sinister-7003321Escrever sobre Belle & Sebastian é como falar um amor inarticulável. A vida de um ser humano inteiro pode mudar por causa de um trabalho de universidade, digo isso porque o B&S nasceu praticamente de uma demo gravada para um professor da universidade, essas demos deram origem ao Tiger Milk. Dois caras, Stuart Murdoch e Stuart David foram os responsáveis por reunir um grupo de músicos glasgowitas que mudariam a maneira do mundo inteiro ver o indie-rock. Em 1995 o Tiger Milk, que deu origem a tudo isso, teve uma tiragem de mil LP’s lançados. O cd só foi lançado após o lendário If you’re Feeling Sinister, lançado em 1996, colocou o Belle entre as grandes bandas escocêsas. Então, ela já estava com uma formação arrojada que incluía Isobel Campbell, Steve Jackson, Chris Geddes e Richard Colbourn, mais tarde Sarah Martin também se juntou a banda e o trompetista Mick Cook.

Para descrever o som do Belle & Sebastian é necessário ter uma caderneta cheia de adjetivos musicais, na ausência desta, direi apenas que é uma combinação de um rock-pop extremamente melódico, usualmente acompanhado por arranjos de cordas bastante elaborados com letras verdadeiras, ferozes e as vezes duras. E vozes…, masculinas e feminas, nem sempre afinadas, nem sempre perfeitas.

Além dos discos a banda escocêsa também lançou uma série de EP’s experimentais, que as vezes se relacionavam com o som de um disco, e outras não tinham nada em comum. Os experimentos são, uma inegável demonstraçã o de genialidade da banda, que ora é infantil como em I’m Waking Up To Us e outras extremamente melancólica como em 3…6…9…seconds for the light.

Após o Sinister e Tiger Milk foram lançados o The Boy With the Arab Strap (1998) altamente mal interpretado como o pior dos quatro primeiros discos da banda, mas certamente ofuscado pelo brilho do disco seguinte, a obra prima do Belle & Sebastian chamada For Your Hands Child You Walk Like a Peasant (2002). Por tanto, não é o caso afirmar que The boy é um disco ruim, pelo contrário ele é uma espécie do pavimentação sem a qual o caminho para o For Your Hands nunca estaria pronto, especialmente em relação ao crescimento de Isobel Campbell dentro da banda e sua fundamental influência no som da banda. (entr e o The boy e o For your hands Stuart David abandona a banda dando seu lugar a Bob Ikea)

O aumento de sua influência, o aumento da pressão e fama do Belle & Sebastian, o fim do relacionamento amoroso com Stuart Murdoch e mais o desgaste provocado pela gravação da trilha sonora do filme homônimo de Todd Solondz chamado Storytelling (2002) colocados juntos culminaram na saída de Isobel Campbel da banda no meio da turnê da banda pelos Estados Unidos em 2002.

Para aqueles que acompanharam o som deles desde o início a saída de Isobel não provocou uma mudança física na banda mas uma mudança sonora drástica,os discos seguintes , Dear Catastrophe Waitress (2003) e The Life Pursuit(2006) só lembram vagamente os discos anteriores da banda desaparecendo quase que por completo a pegada folk para dar origem a um som muito mais pop, produzido e comercial.

A saída de Isobel deve ser considerada realmente um divisor de águas. Porque apesar das negações de ambas as partes é inegável a mudança ocorrida no conteúdo e no formato das músicas do Belle & Sebastian. Embora não seja permitido separar a banda em duas partes é possível escolher qual é o som mais agradável aos ouvidos. Porque depois de dez anos de vida a banda é mais do audível, sem importar a fase, ouvir Belle & Sebastian é simplesmente necessário.

Publicado por: lontraboi | 01/07/2009

A garota de Wallasey

3.

Ana muito mais do que as outras pessoas que eu conhecia, transformava tudo em ritual. Ana me jogava aos lobos na sexta de me acordava todos os sábados já no meio do dia para fazer ‘qualquer coisa’. O qualquer coisa dela não tinha nada de subjetivo, fazer alguma coisa era em geral ir a qualquer lugar onde a sua mais nova obsessão estivesse.

Ela era uma monogâmica serial; ela não amava duas pessoas ao mesmo tempo, não traía – uma das suas qualidades mais admiradas por mim – ainda assim, ela amava uma pessoa depois da outra. Veja que minha ênfase na palavra ‘pessoa’ tem um razão de ser: “ o amor desconhece gêneros” ela mesma faz questão de explicar.

Ela amava com tudo. Ladeira abaixo pedalando a bicicleta. Ela amava todos os seus amores, não importando quais os fins que eles tomavam. Ela chorava suas perdas e ria das suas táticas para terminar histórias que mal tinham começado.

Meu pequeno hiato entre os seriados e as reprises era uma trama arroz com feijão, barrados no baile. Fulaninha não consegue ficar longe de sicraninho e esse por sua vez, beija ardentemente fulaninha2. A minha ausência de entusiasmo furtava um pouco da diversão. Porém, como sempre, eu reservava o melhor lugar para assistir na primeira fileira.

“Camile não entendo como você pode ser minha amiga, sinceramente!” era a melhor definição que ela podia oferecer quando eu me sentia ultrajada ou completamente desconfortável com a eterna busca pelo amor e fugia na primeira oportunidade que tinha. Mais assustador do que ela em si era a possibilidade dela inventar que eu também tinha que seguir seu modus operandi.

Os meus defeitos trágicos cobririam várias páginas, mas os relevantes para Ana, os que segundo ela, eram os mais importantes, e razões fundamentais de todos os meus problemas, seguem: eu não me achar bonita, não agir como se achasse que fosse, não saber fingir e sobretudo uma péssima percepção sobre a realidade. Porque do contrário economizaria muito tempo dela e muitos anos de terapia. Mas quem precisa de terapeuta quando se tem uma Ana.

As minhas definições de mundos paralelos não a faziam feliz também. Em primeiro, havia um mundo com o qual a comunicação se estabelecia sem esforço, no qual explicações são desnecessárias. Nesse mundo só habitavam três pessoas: eu, meu pai e eventualmente Ana, mas isso já era um esforço. Depois, vinha o mundo em que as pessoas que eu conhecia e com as quais era necessário estabelecer um diálogo. No terceiro mundo, sem piadas de duplo sentido, habitavam os desconhecidos, todos os desconhecidos, com os quais eu não me dava ao trabalho de falar.

Falar com o terceiro mundo só era possível pela estrada etílica, como eu freqüentada poucas vezes essa estrada ( contrariando Ana em mais um aspecto) eu não era muito simpática a idéia de conhecer gente nova e de ressaca que nos faz prometer nunca mais andar por esse caminho.

Ana ignorava a minha opinião e me arrastava. De qualquer forma, sempre achei que aquilo que nos diferenciava era exatamente o que nos aproximava, o absoluto desprezo de Ana pela minha inteligência e a minha reciproca em relação as prioridades dela. Ela não tinha nada contra mim, mas contra a minha maneira única de ver o mundo, de analisá-lo e a minha eterna busca por tentar entendê-lo. Ela era uma pessoa pragmática, embora jamais se adjetivasse dessa forma, eu simplesmente não.

Publicado por: lontraboi | 29/05/2009

10 +

1. Rave On – M. Ward

Para completar as 10 mais da viagem pra minas, minha trilha sonora pessoal, vai uma do M.Ward, embora ele já esteja com a Zooey em I put a spell 0n you. Esse agora é do disco mais novo do cara, o Hold Time. Discão.

2. Laura Marling – new romantic

Adoro música e o clip, claro.A Laura Marling é a Malu Magalhães britânica, com a diferença de que essa aqui, canta bem pra caramba.

3. Laura Gibson -spirit

Spirit é uma música divertida e acho que combina com o movimento coisas, a primeira vez que ouvi Laura Gibson foi em Tiradentes, então, não há melhor trilha-sonora.

4. Valerie – amy winehouse

5. Não nego que sou fã da Maria Taylor. Essa música é do novo disco dela.

Publicado por: lontraboi | 17/05/2009

As dez da estrada

6. Pistachio

Música genial do début solo de Lisa Hannigan, que tocava com o Damien Rice.

7. My man he doesn’t love me  – Billie Holliday

Ainda vou fazer um post de vergonha sobre essa extraordinária mulher e cantora única, que é a Billie Holliday. Madeleine Peyroux diz ter aprendido a cantar com ela, e eu que não posso honrar o seu nome só adorá-la coloco como uma das minhas hoje. Pra todo mundo que gosta de música, e que têm que ouvir Billie’s Blues. Nesse vídeo em particular ela é ainda melhor com o talento de Gerry Mulligan, no sax.

8. I Put a spell on You    Because You’re mine

Sempre gostei muito dessa música, na voz da inigualável Nina Simone, mas gostei muito dessa versão do She & Him, então aproveitem.

9. Sei que é jogo baixo, mas Fix You é muito boa. A coisa com o
Coldplay é que muitas, e digo muitas das músicas deles são boas. Mas me irrita pensar que o Chris Martin vire o novo irmão Gallager. Mas até agora. Não tenho do que me queixar. Especialmente pra minhas amigas.

Em Tiradentes
10. Hoje notei que fiquei mais de duas semanas sem postar, duas semanas sem escrever, e sei lá é tempo demais. Nos últimos dias tenho pensado muito nessa música da Maria Rita Caminho das Águas e não sei porque hoje a canção faz muito sentido pra mim. Portanto, aí vai, através do youtube.Direto pra família Leal

Publicado por: lontraboi | 02/05/2009

duas semanas fora

olá pessoal,

só pra avisar que eu não terei atualizações nas próximas semanas, a prova do mestrado esta chegando e eu tenho que estudar. sem mais , espero que curtam o que ta pronto ou quase lá e prometo colocar um novo post da garota de Wallasey em breve.

a sua,

LontraBoi

Publicado por: lontraboi | 30/04/2009

A banda que encontrou sua voz

photosimage Camera Obscura é escocêsa e soava twee até onde a vista – ou os ouvidos- alcançam. No início de sua carreira e especialmente com seu segundo disco ( Underachievers Please try Harder, 2003), o primeiro que obteve relevância fora da Escócia, foi comparada incesantemente ao Belle & Sebastian, especialmente porque o vocalista do B&S Stuart Murdoch e Tracyanne Campbell do Camera, foram por algum tempo namorados e ele produzira aquele segundo disco.

Conversa vai e vem, como diz o título desse disco, Tracyanne já fez uma carreira com sua vida sentimental e obviamente o Stu não durou para ver a banda subir à categoria “trilha sonora de filmes” (P.S. Eu te Amo) e em Let’s get Out of this Country 2006 a música já era outra, Tracy já era outra e nunca se atravessa o mesmo rio duas vezes.

Ao ouví-los pela primeira vez eles parecem fazer colagens com aqueles discos da década de 60 que sua mãe tinha e só ouvia quando estava fazendo faxina na casa, porque o seu pai detestava ( e ainda detesta) sabe,  tipo aquelas músicas que entram para aquelas grandes coleções 40,50,60? Pois bem, parecia tanto… e ainda assim havia alguma coisa nas letras, algumas palavras que ninguém era capaz de cantar e que a palco-fóbica da Tracyanne inventava:

“I don’t want to be part of your scene
I’ll stick with him and keep my nose clean”

Vou ficar com ele e manter o meu nariz limpo? Pois é, inovador para simplicar. Mas também normal, o que é uma traço do Camera, do Biggest Bluest Hi-FI(2001) ao Maudlin Career(2009), eles parecem normais sabe, gente como a gente, como se os vizinhos se tornassem uma banda – mas isso só acontece na High Lands… – enfim, eles não eram musicalmente sofisticados, não eram comercialmente bonitos e nem todas as suas músicas funcionavam, era possível até gostar de algumas delas, mas nunca de um disco inteiro…, isso até o My Maudlin Career (2009).

Esse é o disco em que o Camera Obscura encontrou a sua voz, no qual a Tracyanne Campbell encara a triste sina de ser uma melancólica musicista de coração partido e no todo, o disco que funciona sonoramente, as letras se encaixam na melodia de uma forma bizarra e encantadora.

A verdade é que do HI- FI até aqui a banda ascendia, melhorava a cada disco, mas My Maudlin Career tem Tracyanne Campbell escrito do começo ao fim. Claro que o seu florescimento como compositora depende das condições oferecidas pela banda e do suporte que esta obviamente lhe oferece, em Maudlin ela centraliza o som da banda na sua voz que fala coisas verdadeiras e pessoais em voz suave, não tão tímida como fora em outras ocasiões.

A trepidação de sua voz antes um defeito, agora um charme, seu pavor de palco e sua incapacidade de lidar com o público são hoje uma coleção de características excentricas e suas desventuras amorosas, obviamente, lindas canções de amor que não se restringem aos campos e mãos dadas (amores de conto de fadas) -  falam também dos amores de apenas um dia “French Navy” e os amores que não deram certo “James”. Sem falar na brilhante My Maudlin Career que é ao mesmo tempo, uma continuidade de outras músicas do Camera Obscura e uma espécie de elogio ao que até então fora o som do Camera. Completa o que estava ausente em outras boas canções (“tear for affairs” “let’s get out of this country”)  e diz  “this maudlin career is come to an end, I don’t Wanna to be sad again!” enquanto soam sinos sintéticos e rifes de guitarra.

Ouça todo, ouça com vontade, enquanto estiver correndo, com grandes estranhos fones de ouvido, no som encostado na parede e se por um advento do destino o você tenha sido dividida(o) em dois, faça algo genial com isso. Faça o que Tracyanne Campbell e o Camera Obscura fizeram e quando uma banda finalmente encontra sua voz, por favor dê ouvidos.

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