Todo mundo já ouviu e adorou uma banda que, por uma razão qualquer, separou-se, perdeu um membro, desgrenhou-se, desagregou-se.
Falo disso porque acabei de baixar a discografia completa com milhares de extras de Damien Rice, e no início do ano ouvi muito o trabalho de Lisa Hannigan, que costumava dividir os vocais com Damien e de quem se separou em circunstancias nem um pouco amigaveis ano passado.
Quanto mais ouço as músicas mas me apeno da coisa toda. Vejo que esse é um sentimento redundante – um outro evento notório para a minha carreira sentimental de ouvinte (my listener maudlin career) foi a saída da Isobel Campbell do Belle & Sebastian que eu até citei antes…, ele volta – reacontece. No caso de Damien e Lisa a separação veste-se de camadas de tecido, de sentimento, de intensidade.
A música de Damien Rice se tornou famosa no mundo inteiro com o Disco “O” de 2002, do qual faz parte a canção “the blower’s daughter”, que se tornou insuportável para qualquer ouvido depois da versão que Simone e Ana Carolina fizeram dela, mas que apesar disso compõe um disco visceral, intenso. Falar de um disco mais antigo nos dá uma perspectiva, porque depois de dois anos, mesmo tendo ouvido milhares de vezes, deixado de ouvir, voltado a ouvir, podemos afirmar que além da moda da época, o disco é em essência ‘foda’.
No interior do “O” que passamos a conhecer a música de Rice: é uma música visceral e virulenta e porque não dizer violenta. A sua maneira de escrever música é masculina, e isso é um elogio: vigorosa, sem meio termo, do começo ao fim, e mesmo assim poética, dramática, apaixonada. Antes que a totalidade de adjetivos seja direcionada ao Damien é imprenscindível dizer que eles só se tornam perceptíveis quando ouvimos as suas canções e ao ouví-las é ler nelas o seu sublinhado, dos ornamentos nada da música de Damien Rice nenhum é mais importante que a voz de Lisa Hannigan.
Na verdade, na época em que o “O” estourou, tudo sobre Lisa compunha com Damien, de um lado ela falava baixo, cantava os agudos afinadamente, e as vozes deles se entrelaçavam como sendo partes de uma mesma unidade, como se a existência de um contraste permitisse que toda a selvageria das letras dele viessem à tona e sua intensidade fosse moderada pela delicadeza de Hannigan. Mesmo em “woman like a man”, uma música agressiva, a sua pequena participação na música reafirma exatamente a sua permissividade ao passo que em “volcano” ela divide as estrofes em franca oposição, quase com as mesmas palavras.
O“9”(2006), segundo disco de Damien Rice surgiu por consequência do “O” – uma vez que, segundo o cantor , ele nunca tinha pensado que haveria um outro disco, porque , em suas palavras, era um trabalho só que se encerrava em si mesmo – e como sequencia do “O” o “9” não chega a ser desapontador. Para quem na maioria das vezes se decepciona com o segundo disco de alguém que fez um primeiro muito bom, considero o “9” um ótimo disco, que tem contra ele apenas o fato do ‘mundo inteiro’ já saber como soam as músicas de Damien Rice.
O fato é que, lá pelo meio da turnê européia do “9”, em Munique, em março de 2007, Damien disse a Lisa, na cochia, antes do show que eles não trabalhariam mais juntos. Obviamente ela não teve muita escolha, a não ser ir embora consolada pelos membros de The Magic Numbers – que abriam o deles então – e nunca mais falar com Damien.
As separações não são bonitas, e talvez nem devam ser, mas essa, da maneira que foi, entre o depois de dois discos tão lindos, entra para a lista das mais monstruosas. Especialmente quanto as únicas informações que temos de verdadeira, é a música deles. E entre os discos, as gravações de rádio e os lados B temos um conjunto de belas músicas e a impressão de que de que se completavam. Eles cantam até bossa-nova pelo amor de deus…
Desde então, Damien continua fazendo shows, agora com o palco bem menos populosom – ele veio ao Brasil e fez um show só voz e violão -metade da banda o abandonou para se juntar a Lisa em sua carreira solo.

Esse desfecho, tenho certeza, ainda renderá várias músicas maravilhosas da parte dele, porque da parte de Lisa, que lançou o Sea Sew (2008), o que segue o fim de um relacionamento criativo com Damien Rice, é simplesmente, beleza. Ela manejou não contaminar-se e produzir um conjunto de dez músicas que não remetem a Damien, mas que se concentram nela, pela primeira vez, como se a liberdade tenha lhe permitido ser mais ela mesma, ela Lisa, ela cantora-irlandesa-delicada-pop-folk. As suas músicas são maduras e “ocean and a rock” a música que abre o disco, chega a ser sensual e distoa totalmente da maneira ‘damieniana’ de ver o mundo.
Na história da música pop, a separação de grandes artistas não resulta, na maioria das vezes, em grandes trabalhos solo. As vezes, mesmo quando as bandas não se separam, mas alguém resolve fazer um trabalho solo, como o Thom York – o produto dessa jornada é sem graça em comparação ao trabalho coletivo.

O caso de Lisa não chega a ser um extremo oposto, mas não é nada ruim. Em “Pistachio”, a minha predileta,ela trata da separação de um casal, um processo cansativo do qual ela fala de maneira delicada e ponderada; se a canção servir de metáfora para a seu rompimento violento e repentino com Damien Rice, temos uma prova de que a alma artística ensolarada de Lisa Hannigan, mesmo após o mais doesto temporal, transforma-o na brisa de um dia de verão passado a beira-mar.



Escrever sobre Belle & Sebastian é como falar um amor inarticulável. A vida de um ser humano inteiro pode mudar por causa de um trabalho de universidade, digo isso porque o B&S nasceu praticamente de uma demo gravada para um professor da universidade, essas demos deram origem ao Tiger Milk. Dois caras, Stuart Murdoch e Stuart David foram os responsáveis por reunir um grupo de músicos glasgowitas que mudariam a maneira do mundo inteiro ver o indie-rock. Em 1995 o Tiger Milk, que deu origem a tudo isso, teve uma tiragem de mil LP’s lançados. O cd só foi lançado após o lendário If you’re Feeling Sinister, lançado em 1996, colocou o Belle entre as grandes bandas escocêsas. Então, ela já estava com uma formação arrojada que incluía Isobel Campbell, Steve Jackson, Chris Geddes e Richard Colbourn, mais tarde Sarah Martin também se juntou a banda e o trompetista Mick Cook.
Camera Obscura é escocêsa e soava twee até onde a vista – ou os ouvidos- alcançam. No início de sua carreira e especialmente com seu segundo disco ( Underachievers Please try Harder, 2003), o primeiro que obteve relevância fora da Escócia, foi comparada incesantemente ao Belle & Sebastian, especialmente porque o vocalista do B&S Stuart Murdoch e Tracyanne Campbell do Camera, foram por algum tempo namorados e ele produzira aquele segundo disco.